terça-feira, 3 de março de 2009

CONTINENTAL COMBO




A vida é um mistério (2008)


Falar de uma de suas bandas prediletas pode parecer tarefa fácil, todavia nem sempre dá para tratar de um álbum novo sem ser tornar redundante, uma vez que a trajetória do hoje quarteto paulistano já foi dissecada aqui neste fanzine várias vezes. Mas como a vida sempre guarda presentes misteriosos, tentemos traçar o impossível...

Este é o segundo cd da banda, fora três EP’s, e algumas coletâneas Brasil afora. Lançado de novo pela inquieta Monstro Discos, o maior selo independente brasileiro na atualidade, as doze composições contidas nele fazem emergir as mesmas qualidades da banda: pop sessentista revisitado, dedilhados de guitarras de doze cordas e vocal sussurrado, meio psicodélico meio folk meio rock meio pop (os refrões são evidentes).

Há espaço para vinhetas (“Chegada” e “Partida”) que trazem um lado tipicamente folk do grupo e também espaço para faixas 100% instrumentais, incluindo a enigmática “Caravan”, talvez a melhor do disco, ao lado da radiante “Esboços de abril”, com seus pa-pa-pas dando um retoque pop-psicodélico, uma mistura de Kinks, Syd Barrett e as Shangri-Las. É nesta canção que se percebe a junção do belo e simples trabalho de guitarras da banda, que agora conta também com a presença do exímio Carlos Nishimiya (também do Surfadelica), o mais recente participante ativo do combo.

A onírica “Aretha, Aretha”, uma singela homenagem ao cão mascote da banda (“Pensando em comer o arco-íris / que vê da janela / abanando a calda para decolar”) aparece em versão rock, já que havia sido registrada no álbum solo de Sandro Garcia – o mentor mor das canções do combo continental. Em “Retiro”, fica evidente o eficiente trabalho de baixo e bateria a cargo dos onipresentes Carlos Rodrigues e Rogério Meni. A tensa “Aquecimento global” manda um recado para os quatro continentes.

Outra novidade é que, da meia dúzia de faixas que integram o disco, metade delas é instrumental, apontando uma nova direção para a banda. Mais recentemente, o Continental Combo lançou dois discos virtuais, que podem ser conseguidos acessando o site da banda. Uma das gravações traz canções inéditas e versões diferentes de faixas do recente cd enquanto o outro apresenta os paulistanos tocando dez composições dos Byrds, influência declarada do grupo. É isso, o combo nunca pára. Ainda bem, os ouvidos de um fã distante agradecem.

www.continentalcombo.com

segunda-feira, 2 de março de 2009

GRAND ARCHIVES


SEATTLE, ALELUIA, NÃO É MAIS A MESMA


Uma ótima surpresa advinda das terras que outrora originaram o grunge (que o diabo o tenha!). A ironia é que o alt-country semi-ensolarado dos GRAND ARCHIVES é contratado da ainda poderosa gravadora indie que atende pelo nome de Sub Pop, que ficou marcada por nomes como Mudhoney e Nirvana, mas que sempre lançou bandas de diversas sonoridades, como Fleet Foxes e Beachwood Sparks(só para ficar nos mais recentes) não apenas alguns sub-roqueiros usuários de camisa de flanela. Aliás, o Creedence Clearwater Revival já as tinha usado bem antes.

Lembrando um cruzamento dos bons momentos do Crosby, Still & Nash com os quase vizinhos canadenses dos Cowboy Junkies, o grupo é cria da mente do vocalista/guitarrista Mat Brooke, ex-Band of Horses, que junto com amigos como o baterista Curtis Hall (The Jeunes), o baixista Jeff Montano (The New Mexicans) e os guitarristas Thomas Wright e Ron Lewis, resolveram tocar ao vivo. A primeira apresentação durou cinco canções, ali pelo final de 2006. No segundo show, já estavam abrindo para o Modest Mouse no histórico teatro Paramount em Seattle.

Há tempos uma banda não escrevia composições cadenciadas e belas como “Sleepdriving” – os superestimados Arcade Fire dariam um barco para compor uma dessas – ou o crescendo de “Torn blue foam couch”, outra emocionante canção. Guitarras, violões, gaitas, órgãos e alta octanagem melódica respingam pelas baladonas “Miniature birds” e “Index moon”, esta mostra e prova como bandas como Coldplay não sabem nem sequer como começar uma boa canção pop. As lentas “George Kaminski” e “A setting sun” diminuem o andamento e capricham mais nos climas. Ainda sobra até tempo para micro-faixas – ou vinhetas, se você assim quiser chamar – tais como “Breezy no breezy” e “Orange juice”.

O que importa mesmo é perceber que ainda existem bandas capazes de emocionar os outros, mas que, infelizmente, não atingem as pessoas, pois elas são pasmadas em aceitar o óbvio. Fuja disso. Abra os grandes arquivos. Já é um bom começo.

domingo, 1 de março de 2009

KATHLEEN EDWARDS



Asking for flowers (2008)

Ultra-mega-super-hiper desconhecida por aqui, a canadense Kathleen Edwards arquiteta com as onze faixas de seu terceiro álbum uma qualidade pra lá de rara nos dias de hoje: fazer um disco que você consiga escutar da primeira à última faixa sem precisar pular nenhuma delas. Bom, a sétima faixa (“Sure as shit”) poderia ter ficado melhor do que mostrar apenas voz e violão, mas... está perdoada, Kathleen, as outras compensam o pequeno descuido sonoro. O maridão Colin Cripps também faz pequenas mágicas naquela guitarra ao longo da gravação.

Produzido pelo expert em rock, folk e alt-country Jim Scott (Whiskeytown, Neil Young, Lucinda Williams), o álbum apresenta melodias que, se não ganham do anterior da cantora (Back to me, de 2005), mantêm o nível de qualidade melódica, somada a uma certa atmosfera melancólica típica do estilo. Faixas baladeiras como “Asking for flowers”, que narra a história de uma mulher que espera uma gentileza do marido após sete anos de relacionamento, ou “Oil’s man war”, esta ironizando o modo de vida ianque, surgem entre canções mais radiofônicas que rondam o disco, como a protuberante “I make the dough, you are the glory” (com versos geniais como “I’m Elvis Presley in the seventies / You’re the buffet, I’m just the table / I’m a dodge Sparkle / you’re a Lamborghini”) ou a roqueira “The cheapest key”, com riffs idênticos aos de Tom Petty, além da raivosa “Oh Canada”, citando problemas da sociedade de seu país na atualidade (violência urbana, drogas, fuga para o interior). É, a vida também está mudando onde tudo parecia perfeito.

Mas ela continua a nos dar presentes auditivos vindos diretamente do paraíso, caso da derradeira faixa “Goodnight California”, quase sete minutos de pedal steel, bateria tranqüila e aquela voz capaz de derreter o coração de um bárbaro visigodo (!). Viagem total e absoluta, mais de dois minutos de instrumental na introdução, destacando a guitarra de Greig Leiz (Wilco) e a harmônica de Paul Reddick, além da própria Kathleen tocando também violino. Esta é a faixa mais intrigante, misteriosa e bela que já escutei neste ano de 2008. Ouça e comprove, como se fosse um final de tarde derretendo no último dia do ano.

Quase impossível descobrir um disco inteiro agradável nos dias atuais? Aqui está a prova que não. Baixe, peça emprestado, compre, se emocione, mas não deixe de escutar a canadense. Ela merece a atenção que ainda não tem por estas plagas.
Como curiosidade para os possíveis fãs brasileiros da artista, o encarte está repleto de gravuras antigas com desenhos de flores pertencentes ao jardim botânico de Nova York. Em uma das imagens, na parte de baixo, está a seguinte inscrição de uma flor descoberta pela primeira vez em 1830: “Brésil, Minas Geraes”. Obrigado pela lembrança, Kathleen. Não precisa pedir pelas flores. Nós gentilmente já enviamos. Você merece faz tempo.

www.myspace.com/kathleenedwards