sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

THE HOUSE OF LOVE



The house of love (1988)


O nome do grupo foi retirado de uma das obras “erótico-pornográficas” de Anais Nin. Vindos do sul de Londres, mas com um vocalista, guitarrista e compositor alemão, Guy Chadwick, o grupo lançou ainda em 1987 um compacto chamado “Christine” pelo selo inglês Creation, aquele que lançou Oasis e Jesus & Mary Chain. Pronto. O Reino Unido aos seus pés, embora muitas das canções da banda fossem da época do The Kingdom, banda anterior de Chadwick. No ano seguinte, o LP de estréia. Essencial.

Na abertura perfeita, “Christine”, hino oficial da banda. Canção de talhe clássico, climática, angustiante com os riffs e feedback agudos do guitarrista Terry Bickers, porém sem aquela tempestade sônica. Refrão marcante, melodia idem, um (a)típico exemplar de música pop atemporal. Já a seguinte, “Hope”, vem mais calma, cheia de dedilhados e versos no máximo de sotaque alemão de Chadwick, uma beleza. A próxima é “Road”, exalando um aroma psicodélico com riff mântrico de guitarra que se une ao baixo agudo de Groothuizen, tudo isso enquanto a voz grave do alemão segue quase explodindo como se fosse um Lou Reed mais entediado ainda, sem esquecer dos yeah-yeah-yeahs ao final. “Sulphur” parece um mix de Velvet com Stones, com microfonias no refrão e retorno à calmaria. Tempestade de ácido sulfúrico. Em “Man to child”, o andamento desacelera e os vocais sussurrantes tomam conta desta quase balada, com a letra versando perguntas seriamente irônicas a Jesus (“Where is the money?”), a Deus (“What am I doing?”) e Maria (“Where is the love?”).

O lado B – sim, o LP saiu no Brasil em tiragem limitadíssima de 500 cópias em 1989 pela Stilleto – vem nervoso com “Salome” e sua personagem feminina vista sob desejo vingativo (“I love the way she cries”) que mais parece uma prece. Efeitos flutuantes avisam que a etérea “Love in a car” emerge com uma bateria minimalista, cortesia de Pete Evans, causando um efeito Velvet total. Já “Happy” anuncia riffs apocalípticos e versos paradoxais (“I’ve lost my point of viem / but I’m happy to be with you”) em mais uma canção que implode e explode ao mesmo tempo, com Chadwick terminando por dizer “It’s not love”. A penúltima, “Fisherman’s tale”, abre com vocal quase gospel e pedidos oceânicos (“take me to the sea [...] I’d wish I sail away”) ao mesmo tempo em que a banda ergue tensão e alívio nos acordes de alta octanagem psicodélico-garageira. A despedida é “Touch me”, transparecendo as atmosferas sombrias velvetianas. Bateria mínima, acordes angustiantes, vozes inabaláveis (o título é repetido treze vezes, desesperado), microfonias, até terminar suave, o oposto do início do álbum.

The House of Love acabou em 1994, com Chadwick seguindo em instável carreira solo. A banda voltou a se reunir com a formação original em 2004, lançando o agradável Days run away.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

REDLANDS PALOMINO



Alt-country britânico

Observar bandas do velho continente simulando sonoridades do novo continente é fato raro. O comboio THE REDLANDS PALOMINO COMPANY produz o que se convencionou chamar de alt-country, ou seja, aquela mistura de southern rock, um pouco da sonoridade californiana nos momentos radiantes e arpejos timbrados na escola country. Tudo envolto na atmosfera bucólico-campesina.
A banda se formou em 1999 e, apesar de estar em Londres, seus integrantes são também do País de Gales e do sul da Inglaterra. Seus integrantes, Hannah Elton-Wall (voz, guitarra, violão), Alex Elton-Wall (voz, guitarra, violão), David Rothon (guitarra de 12 cordas, pedal steel), Rain (baixo) Tom Bowen (guitarra, violão), Dan Tilbury (bateria, também integrante dos The Snakes), lançaram o primeiro álbum By the time you hear this...we’ll be gone somente em 2004 pela independente Laughing Outlaw e se mantendo nesta gravadora para os discos seguintes.

Mas o cartão de apresentação da banda é o disco Take me home, lançado ano passado. Suas onze faixas possuem melodias encharcadas de belas canções, caso da baladona radiofônica “Wasted on you” e da instigante “Please come running”, além das canções mais climáticas, como “Empty feeling” (Creedence total) e a bela voz de Hannah em “She is yours”, um pequeno oásis no deserto sonoro de nossos dias. Um dos raros discos para se escutar de ponta a ponta que saíram na atualidade.

Recentemente lançaram o EP She is yours, contendo quatro faixas. Escute as canções e perceba que nem tudo está perdido, pois ainda há esperança nas terras ensolaradas e vermelhas desta companhia.


www.redlands.moonfruit.com

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

WRY


BRASILEIROS BRETÕES


Após algumas fitas demo e dois discos independentes lançados em solo tupiniquim, a gangue de Sorocaba (SP) se mudou de mala – sem cuia e sem cuíca – e guitarras para o solo britânico. Teimaram, peitaram e acabaram de lançar o terceiro cd, Flames in my head (Monstro Discos), desta vez com algumas faixas produzidas por Tim Wheeler (vocalista do Ash) e por Gordon Raphael (produtor do primeiro dos Strokes). No Brasil, saiu em belo formato digipack (veja seção Rok-en-rol).

O som do quarteto WRY aparentemente nunca mudou, fazendo bastante uso dos pedais de distorção e erguendo uma sonoridade nervosa com fisionomia noventista, similar a obscuras bandas britânicas como Midway Still, Senseless Things e até nuances de Idlewild, atual sensação escocesa. O álbum recente, no entanto, dá um passo a mais na qualidade da gravação, incluindo quatro faixas gravadas no próprio estúdio do grupo em Londres, na verdade a garagem, literalmente.

No disco novo, a maioria das canções passou pelo recapeamento dos produtores e a banda abrandou em alguns instantes, chegando quase a ficar quase pop (“Come and fall“), mas continuou arquitetando chuvas de lava garageira (“In the hell of my head“, “Powerless”), bem ao gosto dos atuais subterrâneos londrinos e seus inferninhos repletos de bandas procurando ser o próximo estouro. O disco emerge coeso nas dez composições presentes.

Em solo inglês desde 2003, o WRY – mesmo não sendo uma banda singular, fazendo um som até “normal” – conseguiu o que muitos sonham. Gravar, tocar e lançar discos na capital do (bom) rock terrestre. Também lançaram um compacto pela Monstro Discos (ver seção Rok-en-rol), estão gravando um novo trabalho (Whales and sharks) e escrevendo seu nome certo por linhas tortas.

www.myspace.com/wrymusic