Conhecidos apenas no Japão, e até mais do que em sua terra natal, a Estônia (olhe no mapa europeu! Faltou às aulas de geografia, foi?!), o sexteto PIAFRAUS continua sendo um dos prolíficos nomes que ainda tocam, e muito bem, um tipo de som que muitos pensam ter acabado: o tal do dream-pop, ou shoegazer, para os mais aficccionados. Sim, a banda parece uma mistura de Cocteau Twins, My Bloody Valentine e Ride, ou seja, aqueles vocais sussuradamente psicodélicos, guitarras cortantes e cheias de efeito, além de, claro, aquela melodia escondida por trás da parede de som criada. Na ativa desde o início deste milênio, Eve Komp (voz, sintetizador), Kart Ojavee (sintetizador), Rein Fuks (guitarra, voz), Tonis Kenkmaa (guitarra), Reijo Tagapere (baixo) e Margus Voolpriit (bateria) lançaram seu primeiro cd ainda em 2001, Wonder what it’s like, de forma independente e o segundo álbum, In solarium (2002), já saiu nos EUA pela Clairecords.
Eles costumam tocar muito pouco ao vivo. Ano passado, somente os estonianos e japoneses tiveram o prazer de ouvi-los e vê-los em ação. Em 2005, veio a consagração independente com Sailing on a grapefruit lake, lançado pelo selo japonês Vinyl Junkie, que com suas quatorze faixas arrebanharam um séqüito de fãs ao redor do mundo. Não havia como negar a beleza suavidade/rispidez de canções como “Moon like a pearl” ou “Summer before spring”. Em 2006 foi lançado Natural heart software, trazendo mais doze faixas que fazem um cruzamento entre Brian Wilson fase psicodélica e Kevin Shields no auge do barulho sônico.
No segundo semestre de 2008 saiu Aftersummer, assim como o anterior lançado pelo selo da Estônia Seksound (que já completou vinte anos de atividade!) e que nele trabalham Eve e Tonis. Nas treze faixas do álbum, a mesma sonoridade onírica do sexteto marca composições como “Springsister” e “Saling yes”, lembrando os bons momentos do Stereolab e Lush, todavia com gosto de novidade. Ah, o disco foi produzido por Norman Blake (Teenage Fanclub)
Procure. Ainda existe boa música neste mundo cruel. Viva o Pia Fraus!
Um dos países mais importantes do mundo de outrora (leia-se século passado, quiçá milênio passado) cometeu uma das raras boas surpresas no mundo do rock no ano passado. O nome de um quinteto advindo da Hungria – não sabe onde é? Pegue o mapa da Europa, olhe para a direita, quase no cantinho... – parece simples e direto como a música que ressoa de seus inspirados acordes: THE MOOG, advindos da capital do país citado, Budapeste.
Apadrinhados pelo selo independente norte-americano Musick Records, os “hungrienses” – sinta o drama dos nomes! – Tonyo (vocals / teclados), Adi (guitarra), Miguel (guitarra), Csabi (baixo) e Gergo (bateria) impõem um som que trafega pelo power pop de guitarras altas, o clima meio Nova York de algumas melodias (você sabe do que se trata...) e exala juventude em canções rápidas.
O grupo manda ver e ouvir no volume e refrões ensolarados, caso das faixas “Everybody wants”, um petardo sonoro apresentando os clássicos três acordes, e, principalmente, na estridente “I like you”, uma mistura de Beatles, Superdrag e Buzzcocks. Um riff de guitarra daqueles, aquela urgência comunicativa e um estribilho mais pegajoso do que chiclete no asfalto em dia de verão nos trópicos.
O álbum de estréia Sold for tomorrow, lançado ano passado, segue a mesma linha, às vezes com menos inspiração (vide as faixas “Panic” e “Can’t say no can’t say yes”) e outras vezes beirando bandas britânicas mais apressadinhas, como em “Survive”, que mais parece um The Clash acelerado, quase punk, mas contendo uns backing vocals quase doo-wop. Para dizer a verdade, assemelha-se mais a uma versão contemporânea dos Kinks (com todo respeito, consideração e vantagem aos bretões, claro).
Ultimamente, a banda está em turnê pela Europa, (Espanha, França, Alemanha...), mas continua com os dez pés nos Estados Unidos, que acolheu estranhamente cinco cidadãos que parecem passar férias na Califórnia (sede do selo Musick) ao mesmo tempo em que expõem alguns dos piores cortes de cabelo da temporada, isso desde 2005, quando a banda começou a tocar em alguma garagem de Budapeste. Como diria o título de uma de suas faixas, “You raised a vampire”.
Bem, o The Moog não é a nona nem a décima maravilha do planeta, mas vale gastar alguns segundos de sua vida os escutando. Além do mais, você vai ficar expert em entender a língua inglesa sob um leve acento vindo de um país quase esquecido. Isto, sim, parece ser a tal globalização.
Ele teve uma banda chamada Divine Brown em algum lugar de Pernambuco. Quase ninguém ouviu falar nela, talvez por causa do próprio nome, uma piada sem a mínima graça (anais dos anos 90...). Nela havia o embrião de uma faixa chamada “Let me surf”, clássico indiscutível da cena independente nacional e mundial de todos os tempos. Passados alguns anos, o cidadão chamado Felipe Vieira mudou de nome e virou BADMINTON, isso por volta de 1998. Pouco depois, gravava o primeiro disco (solo?) com a ajuda de amigos como Zé Guilherme (ex-Supersoniques) e Marcelo Gomão (Vamoz!). Claro, desde esta época, Felipe conta com a ajuda inestimável da experiente baterista Maggie Stern, que por motivos de força maior nunca tocou com o Badminton ao vivo (não que eu saiba!).
O disco foi lançado pelo fanzine eletrônico pernambucano Nasentocas juntamente com o selo ultra-indie Musicland (PB) no final do ano de 1999. O cd se chamava Petroliana e trazia doze faixas gravadas no estúdio Mr. Mouse, entre elas o clássico absoluto “Let me surf”, em versão definitiva. Felipe, no seu site do My Space, classifica a banda como southern rock, ou seja, aquelas guitarras estradeiras com aroma de argila, mas com riffs à la Dinosaur Jr. e, claro, um vocal preguiçoso daqueles gravados no domingo de manhã. O disco era um cruzamento de momentos elétricos e instantes mais calmos, quase acústicos, embora muito despojados.
Após o lançamento do cd, Felipe fez alguns shows, como um excelente ocorrido no extinto Mostrazine (João Pessoa) em 2000, e depois literalmente sumiu do mapa, só voltando a ressurgir em um cd split dividido com as bandas Beckstages (PE) e Sugardrive (SP), lançado em comemoração aos cinco anos do fanzine Nasentocas. Eis que chega 2008, uma década depois de Petroliana, e aparece um cd chamado simplesmente de II, contendo dez faixas novas, se não tão inspiradas quanto o primeiro, mas mantendo o nível das composições, com o novo disco sendo aparentemente mais “roqueiro”, guitarras mais altas e rápidas, embora com algumas faixas mais, digamos, calmas.
Felipe Vieira tenta provar que é um dos bons talentos presentes na região e que mereceria muito bem ser mais conhecido, nem que seja só de dez em dez anos. Ah, antes que esqueçamos, Maggie Stern é a bateria eletrônica de estimação de Felipe Vieira.
Quando é que passaria na mente de um cidadão de descendência oriental misturar uma música que apresentasse influências guitarrísticas da década de 1960 que transpire surf music instrumental (leia-se The Lively Ones, The Shadows, Link Wray, Dick Dale) e traços de psicodelia nos dedilhados delirantes, além de distorção shoegazer à la Ride ou Pale Saints? Esta loucura musical tem nome, funciona muito bem e vem de um trio paulistano: SURFADELICA.
O “veterano” guitarrista Carlos Nishimiya (ex-Maria Angélica, uma das lendárias bandas independentes dos anos 80) passou boa parte dos anos 90 e 2000 tocando com Kid Vinil e um outro grupo chamado Los Tornados, este de surf music contemporânea. O músico resolveu chamar dois amigos para arquitetar suas idéias nada convencionais. Vieram Mauricio Guedesson (baixo) e JC Góes Rock (bateria). Pronto, em novembro de 2006 gravaram a primeira demo, que depois viraria um single pela Pisces Records somente no início de 2008. Antes disso, saíram na coletânea em vinil lançada em Portugal Brazilian surf a go-go, the attack of the tiki waves (2007). Mas o disco do power-surf-trio já estava quase para sair...
O álbum de estréia intitula-se Surfing on thedesertshore (2008, Pisces Records), vem com onze faixas e já ganhou elogios da imprensa internacional – o jornalista Phil Dirt, do site especializado Reverb Central – assim como de veículos nacionais (Revista Trip, Coquetel Molotov), todos elogiando a ousadia do trabalho instrumental da banda. A faixa de abertura, “Surf me to the moons of Saturn”, sozinha já vale a aquisição do álbum, trazendo aqueles dedilhados nas cordas mais graves da guitarra Fender Strato de Nishimiya somados a um ambiente revisitado dos acordes e efeitos da psicodelia sessentista. A segunda composição, “Freakin’out surfin’ in”, mantém o mesmo nível e carrega nos tremolos, fazendo a faixa se transformar em uma espécie de passeio pela orla da Califórnia observando a natureza e aquelas ondas perfeitas. Viagem total.
Daí em diante a timbragem vintage acompanha acordes pontudos (“Roswell”), andamentos mais sincopados (“Quasimoto”) e até semelhanças com a surf music oitentista da Austrália (“Questionable navigation”), lembrando os momentos instrumentais do Spy Vs. Spy. Há inclusive instantes quase calmos (“Nobody’s fault”), mas a guitarra de Nishimiya sempre lembra que a banda dele é de rock.
A cozinha da banda segue à risca os detalhes das composições, acrescentando firmeza sem se desdobrar nos excessos (um dos perigos para quem faz música instrumental) e o Surfadelica segue em frente, sem medo de arriscar. Detalhe: nas faixas “View from the Plateau” e “Overdrive over time” surgem umas microfonias que acabaram parecidas com o clima dos mineiros do Valv. Será? Surf-music-shoegazer-indie-pop-post-rock? Escute !
Banda: The Jesus and Mary Chain Álbum : Psychocandy (1985)
Origem : Glasgow, Escócia.
Por Alexandre Alves*
Feedback. Microfonia. White noise. Canções (?) de ácido psicótico. O LP mais barulhento da história, provavelmente. Não tenho notícia de ninguém nesse planeta que conseguiu escutar este disco de uma ponta a outra de uma vez só. Edificado justamente no ponto limítrofe entre melodia e barulho, o som do Jesus começou a ser tramado no final de 1983, em East Killbride, Escócia. Lá, os irmãos William e Jim Reid (guitarras e vocais), Douglas Hart (baixo) e Bobby Gillespie (bateria e futuro Primal Scream em pessoa) se juntaram para amplificar aquele som que o Velvet Underground fazia nos anos 60.
Após quatro singles, vem o ensurdecedor “Psychocandy”, lançado em 85. De início – provavelmente, como uma estratégia para “esconder” o que viria a seguir, afinal de contas, devem ter aprendido com seus shows, que, então, duravam só quinze (!) minutos – vem o hit (?!) “Just Like Honey”, uma balada antes do caos se iniciar com “The Living End”. Surge o ruído-zumbido mais afiado da história do rock. “Taste The Floor” segue a mesma linha. Já “The Hardest Walk” soa como uma cover dos Beach Boys amplificada pelos pedais Fuzz, marca característica da banda. “Cut Dead” descansa os ouvidos um pouco. “In A Hole” é um punk rock feito em ruído. “Taste Of Cindy” é mais uma surf song de inverno, onde a influência do VU se faz visível.
A zoeira volta com “Never Understand” e “Inside Me”, a canção perfeita na opinião de William. “Sowing Seeds” dá pausa para um descanso, que parece querer continuar com “My Little Underground”, mas esta explode no final. “You Trip Me Up” é aquilo que Jim chamou de “a canção de verão do Jesus”. Na penúltima, “Something´s Wrong”, o vocal sonolento se sobressai em meio à muralha de distorção, mas logo desaparece em “It´s So hard”, que finaliza o álbum com o barulho característico impulsionado ad infinitum. No disco, letras sobre rejeição, perda e sexo se entrecruzam sob a tormenta celestial dos escoceses de East Killbride. Sim, “Psychocandy” criou canções (!) como beijos em arame farpado.
Atual, barulhento, psicótico. O disco mais barulhento da história do rock.
Banda: The Pixies
Álbum : Surfer rosa (1988)
Origem : Boston, USA
Segundo Black Francis, hoje Frank Black (e não é aquele da série Millenium!), este álbum de lavas incandescentes tinha como título “Whore”. A gravadora 4AD achou um tanto “imprópio” e acabou ficando “Surfer Rosa”, pois o maluco líder dos Pixies arrumou uma mulher que fosse surfista e que topasse também posar nua da cintura pra cima na capa. Se o nome é Rosa e se a história é verídica, isso já não importa…
Lançado em março de 1988, os Bostonianos Charles Michael Kitridge Thompson, vulgo Black Francis (voz/guitarra) e David Lovering (bateria) mais a menina baixista/vocalista de Ohio Mrs. John Murphy, futura Kim Deal e deusa do rock alternativo – isso existe? – e o guitarrista filipino Joey Santiago conseguiram aglutinar em 13 faixas, verdadeiras hecatombes sônicas e absurdamente permeadas por um punch igualmente fascinado por melodia e barulho que talvez jamais sejam equiparados, talvez devido a sua própria explosão sonora única e idiossincrática visceralidade, talvez pelo próprio tempo, que talvez poderá dizer alguma coisa. Talvez….
Anti-produzido(!) pelo mestre do noise Steve Albini – hoje em dia, ele diz não achar nada demais neste trabalho - , gravado em duas semanas e com todas as vozes postas em uma única noite, o disco abre com a galopante “Bone Machine”, cortantes riffs de guitarras, a linha de baixo mais fácil do mundo e vocais contrapostos de Francis (gritando) e Kim (falando). Dá vontade de sair quebrando tudo pela frente e cantar ao mesmo tempo. A sadomasoquista “Break My Body” mantém o pique com seu épico refrão “Break my body, hold my bones”. Na terceira “Something Against You”, a paulada aparece de vez, num elo perdido entre trash e hardcore. 1´45´´ de berros indecifráveis e velocidade destruidora. Na seqüência, mais um exemplar de colapso corporal chamado “Broken Face” e uma sombra de Stooges e MC5. Depois emerge a agridoce “Gigantic”, com milady Kim Deal e sua voz angelical nos levando para mais um refrão explosivo e riffs mântricos. Termina o lado A, “River Euphrates” e sua melodia de girl group + Nirvana (quando este ainda nem existia!).
“Where Is My Mind” surge indescritível em seu violão quase folk, guitarras pixeanas e letra surreal. Clássico absoluto de todos os tempos, sem comentários. “Cactus” vem quieta e logo se inquieta. Pixies puro. Kim anuncia e começa “Tony´s Theme”. De acordo com Francis, as canções do Pixies podiam “tanto intoxicar quanto pulverizar”, esta faz os dois, assim como “Oh My Golly!”, com letra nonsense em espanhol (está na capa). Em seguida, aparece Francis falando (palavrões) com alguém num diálogo invisível não creditado no disco. “Vamos” intensifica o encontro bilíngüe inglês/espanhol (estrofe/refrão) entre riffs mais sujos ainda, microfonias e bateria cavalar. Mais guitarras ensurdecedoras se prontificam em “I´m Amazed” e desembocam na última faixa, a quase educada “Brick is Red”, que já prenunciava os lançamentos posteriores da banda.
Desleixadamente bem gravado como uma espécie de garage sound intocável, “Surfer Rosa” não é um álbum fácil, e nem deveria. Seu organismo pulsante é a prova viva de uma sonoridade que vicia os ouvidos e que, a cada dia que passa, permanece inviolável por sua inclassificável beleza sônica.
O fanzine foi criado em 2005 no intuito de simplesmente falar de música alternativa (rock, alt-country, indie rock, britpop) que não estivesse na grande imprensa. No formato simples de tamanho ofício e contendo em média 10 páginas, além de trazer informações da cena independente brasileira e potiguar - com seções específicas - , o Barulhoscópio trata de bandas de qualquer lugar do planeta, contanto que faça boa música pop, pelo menos, do nosso ponto de vista, idiossincrático, pessoal e analítico (!).
Um fanzine precisa estar à frente da grande imprensa (revistas, jornais, sites), que na maioria das vezes, está atrelada ao gosto do grande público consumidor (leia-se "massa"). Por tal motivo, há uma busca do fanzine por nomes ainda obscuros dentro do cenário musical do rock, seja ele feito no Rio Grande do Norte, no interior de Santa Catarina ou nos confins da Nova Zelândia.
O que importa é escrever sobre música, seja ela novidade ou antiga, no objetivo de passar informações pura e simplesmente a um tipo de leitor ávido por informação, já que no Brasil as publicações sobre música praticamente são inexistentes quanto ao assunto pretendido no fanzine.