domingo, 4 de janeiro de 2009

SURFADELICA




PRAIA, SHOEGAZER E PSICODELIA


Quando é que passaria na mente de um cidadão de descendência oriental misturar uma música que apresentasse influências guitarrísticas da década de 1960 que transpire surf music instrumental (leia-se The Lively Ones, The Shadows, Link Wray, Dick Dale) e traços de psicodelia nos dedilhados delirantes, além de distorção shoegazer à la Ride ou Pale Saints? Esta loucura musical tem nome, funciona muito bem e vem de um trio paulistano: SURFADELICA.

O “veterano” guitarrista Carlos Nishimiya (ex-Maria Angélica, uma das lendárias bandas independentes dos anos 80) passou boa parte dos anos 90 e 2000 tocando com Kid Vinil e um outro grupo chamado Los Tornados, este de surf music contemporânea. O músico resolveu chamar dois amigos para arquitetar suas idéias nada convencionais. Vieram Mauricio Guedesson (baixo) e JC Góes Rock (bateria). Pronto, em novembro de 2006 gravaram a primeira demo, que depois viraria um single pela Pisces Records somente no início de 2008. Antes disso, saíram na coletânea em vinil lançada em Portugal Brazilian surf a go-go, the attack of the tiki waves (2007). Mas o disco do power-surf-trio já estava quase para sair...

O álbum de estréia intitula-se Surfing on the desertshore (2008, Pisces Records), vem com onze faixas e já ganhou elogios da imprensa internacional – o jornalista Phil Dirt, do site especializado Reverb Central – assim como de veículos nacionais (Revista Trip, Coquetel Molotov), todos elogiando a ousadia do trabalho instrumental da banda. A faixa de abertura, “Surf me to the moons of Saturn”, sozinha já vale a aquisição do álbum, trazendo aqueles dedilhados nas cordas mais graves da guitarra Fender Strato de Nishimiya somados a um ambiente revisitado dos acordes e efeitos da psicodelia sessentista. A segunda composição, “Freakin’out surfin’ in”, mantém o mesmo nível e carrega nos tremolos, fazendo a faixa se transformar em uma espécie de passeio pela orla da Califórnia observando a natureza e aquelas ondas perfeitas. Viagem total.

Daí em diante a timbragem vintage acompanha acordes pontudos (“Roswell”), andamentos mais sincopados (“Quasimoto”) e até semelhanças com a surf music oitentista da Austrália (“Questionable navigation”), lembrando os momentos instrumentais do Spy Vs. Spy. Há inclusive instantes quase calmos (“Nobody’s fault”), mas a guitarra de Nishimiya sempre lembra que a banda dele é de rock.

A cozinha da banda segue à risca os detalhes das composições, acrescentando firmeza sem se desdobrar nos excessos (um dos perigos para quem faz música instrumental) e o Surfadelica segue em frente, sem medo de arriscar. Detalhe: nas faixas “View from the Plateau” e “Overdrive over time” surgem umas microfonias que acabaram parecidas com o clima dos mineiros do Valv. Será? Surf-music-shoegazer-indie-pop-post-rock? Escute !

www.surfadelica.com


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