Asking for flowers (2008)
Ultra-mega-super-hiper desconhecida por aqui, a canadense Kathleen Edwards arquiteta com as onze faixas de seu terceiro álbum uma qualidade pra lá de rara nos dias de hoje: fazer um disco que você consiga escutar da primeira à última faixa sem precisar pular nenhuma delas. Bom, a sétima faixa (“Sure as shit”) poderia ter ficado melhor do que mostrar apenas voz e violão, mas... está perdoada, Kathleen, as outras compensam o pequeno descuido sonoro. O maridão Colin Cripps também faz pequenas mágicas naquela guitarra ao longo da gravação.
Produzido pelo expert em rock, folk e alt-country Jim Scott (Whiskeytown, Neil Young, Lucinda Williams), o álbum apresenta melodias que, se não ganham do anterior da cantora (Back to me, de 2005), mantêm o nível de qualidade melódica, somada a uma certa atmosfera melancólica típica do estilo. Faixas baladeiras como “Asking for flowers”, que narra a história de uma mulher que espera uma gentileza do marido após sete anos de relacionamento, ou “Oil’s man war”, esta ironizando o modo de vida ianque, surgem entre canções mais radiofônicas que rondam o disco, como a protuberante “I make the dough, you are the glory” (com versos geniais como “I’m Elvis Presley in the seventies / You’re the buffet, I’m just the table / I’m a dodge Sparkle / you’re a Lamborghini”) ou a roqueira “The cheapest key”, com riffs idênticos aos de Tom Petty, além da raivosa “Oh Canada”, citando problemas da sociedade de seu país na atualidade (violência urbana, drogas, fuga para o interior). É, a vida também está mudando onde tudo parecia perfeito.
Mas ela continua a nos dar presentes auditivos vindos diretamente do paraíso, caso da derradeira faixa “Goodnight California”, quase sete minutos de pedal steel, bateria tranqüila e aquela voz capaz de derreter o coração de um bárbaro visigodo (!). Viagem total e absoluta, mais de dois minutos de instrumental na introdução, destacando a guitarra de Greig Leiz (Wilco) e a harmônica de Paul Reddick, além da própria Kathleen tocando também violino. Esta é a faixa mais intrigante, misteriosa e bela que já escutei neste ano de 2008. Ouça e comprove, como se fosse um final de tarde derretendo no último dia do ano.
Quase impossível descobrir um disco inteiro agradável nos dias atuais? Aqui está a prova que não. Baixe, peça emprestado, compre, se emocione, mas não deixe de escutar a canadense. Ela merece a atenção que ainda não tem por estas plagas.
Como curiosidade para os possíveis fãs brasileiros da artista, o encarte está repleto de gravuras antigas com desenhos de flores pertencentes ao jardim botânico de Nova York. Em uma das imagens, na parte de baixo, está a seguinte inscrição de uma flor descoberta pela primeira vez em 1830: “Brésil, Minas Geraes”. Obrigado pela lembrança, Kathleen. Não precisa pedir pelas flores. Nós gentilmente já enviamos. Você merece faz tempo.
www.myspace.com/kathleenedwards

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