terça-feira, 3 de março de 2009

CONTINENTAL COMBO




A vida é um mistério (2008)


Falar de uma de suas bandas prediletas pode parecer tarefa fácil, todavia nem sempre dá para tratar de um álbum novo sem ser tornar redundante, uma vez que a trajetória do hoje quarteto paulistano já foi dissecada aqui neste fanzine várias vezes. Mas como a vida sempre guarda presentes misteriosos, tentemos traçar o impossível...

Este é o segundo cd da banda, fora três EP’s, e algumas coletâneas Brasil afora. Lançado de novo pela inquieta Monstro Discos, o maior selo independente brasileiro na atualidade, as doze composições contidas nele fazem emergir as mesmas qualidades da banda: pop sessentista revisitado, dedilhados de guitarras de doze cordas e vocal sussurrado, meio psicodélico meio folk meio rock meio pop (os refrões são evidentes).

Há espaço para vinhetas (“Chegada” e “Partida”) que trazem um lado tipicamente folk do grupo e também espaço para faixas 100% instrumentais, incluindo a enigmática “Caravan”, talvez a melhor do disco, ao lado da radiante “Esboços de abril”, com seus pa-pa-pas dando um retoque pop-psicodélico, uma mistura de Kinks, Syd Barrett e as Shangri-Las. É nesta canção que se percebe a junção do belo e simples trabalho de guitarras da banda, que agora conta também com a presença do exímio Carlos Nishimiya (também do Surfadelica), o mais recente participante ativo do combo.

A onírica “Aretha, Aretha”, uma singela homenagem ao cão mascote da banda (“Pensando em comer o arco-íris / que vê da janela / abanando a calda para decolar”) aparece em versão rock, já que havia sido registrada no álbum solo de Sandro Garcia – o mentor mor das canções do combo continental. Em “Retiro”, fica evidente o eficiente trabalho de baixo e bateria a cargo dos onipresentes Carlos Rodrigues e Rogério Meni. A tensa “Aquecimento global” manda um recado para os quatro continentes.

Outra novidade é que, da meia dúzia de faixas que integram o disco, metade delas é instrumental, apontando uma nova direção para a banda. Mais recentemente, o Continental Combo lançou dois discos virtuais, que podem ser conseguidos acessando o site da banda. Uma das gravações traz canções inéditas e versões diferentes de faixas do recente cd enquanto o outro apresenta os paulistanos tocando dez composições dos Byrds, influência declarada do grupo. É isso, o combo nunca pára. Ainda bem, os ouvidos de um fã distante agradecem.

www.continentalcombo.com

segunda-feira, 2 de março de 2009

GRAND ARCHIVES


SEATTLE, ALELUIA, NÃO É MAIS A MESMA


Uma ótima surpresa advinda das terras que outrora originaram o grunge (que o diabo o tenha!). A ironia é que o alt-country semi-ensolarado dos GRAND ARCHIVES é contratado da ainda poderosa gravadora indie que atende pelo nome de Sub Pop, que ficou marcada por nomes como Mudhoney e Nirvana, mas que sempre lançou bandas de diversas sonoridades, como Fleet Foxes e Beachwood Sparks(só para ficar nos mais recentes) não apenas alguns sub-roqueiros usuários de camisa de flanela. Aliás, o Creedence Clearwater Revival já as tinha usado bem antes.

Lembrando um cruzamento dos bons momentos do Crosby, Still & Nash com os quase vizinhos canadenses dos Cowboy Junkies, o grupo é cria da mente do vocalista/guitarrista Mat Brooke, ex-Band of Horses, que junto com amigos como o baterista Curtis Hall (The Jeunes), o baixista Jeff Montano (The New Mexicans) e os guitarristas Thomas Wright e Ron Lewis, resolveram tocar ao vivo. A primeira apresentação durou cinco canções, ali pelo final de 2006. No segundo show, já estavam abrindo para o Modest Mouse no histórico teatro Paramount em Seattle.

Há tempos uma banda não escrevia composições cadenciadas e belas como “Sleepdriving” – os superestimados Arcade Fire dariam um barco para compor uma dessas – ou o crescendo de “Torn blue foam couch”, outra emocionante canção. Guitarras, violões, gaitas, órgãos e alta octanagem melódica respingam pelas baladonas “Miniature birds” e “Index moon”, esta mostra e prova como bandas como Coldplay não sabem nem sequer como começar uma boa canção pop. As lentas “George Kaminski” e “A setting sun” diminuem o andamento e capricham mais nos climas. Ainda sobra até tempo para micro-faixas – ou vinhetas, se você assim quiser chamar – tais como “Breezy no breezy” e “Orange juice”.

O que importa mesmo é perceber que ainda existem bandas capazes de emocionar os outros, mas que, infelizmente, não atingem as pessoas, pois elas são pasmadas em aceitar o óbvio. Fuja disso. Abra os grandes arquivos. Já é um bom começo.

domingo, 1 de março de 2009

KATHLEEN EDWARDS



Asking for flowers (2008)

Ultra-mega-super-hiper desconhecida por aqui, a canadense Kathleen Edwards arquiteta com as onze faixas de seu terceiro álbum uma qualidade pra lá de rara nos dias de hoje: fazer um disco que você consiga escutar da primeira à última faixa sem precisar pular nenhuma delas. Bom, a sétima faixa (“Sure as shit”) poderia ter ficado melhor do que mostrar apenas voz e violão, mas... está perdoada, Kathleen, as outras compensam o pequeno descuido sonoro. O maridão Colin Cripps também faz pequenas mágicas naquela guitarra ao longo da gravação.

Produzido pelo expert em rock, folk e alt-country Jim Scott (Whiskeytown, Neil Young, Lucinda Williams), o álbum apresenta melodias que, se não ganham do anterior da cantora (Back to me, de 2005), mantêm o nível de qualidade melódica, somada a uma certa atmosfera melancólica típica do estilo. Faixas baladeiras como “Asking for flowers”, que narra a história de uma mulher que espera uma gentileza do marido após sete anos de relacionamento, ou “Oil’s man war”, esta ironizando o modo de vida ianque, surgem entre canções mais radiofônicas que rondam o disco, como a protuberante “I make the dough, you are the glory” (com versos geniais como “I’m Elvis Presley in the seventies / You’re the buffet, I’m just the table / I’m a dodge Sparkle / you’re a Lamborghini”) ou a roqueira “The cheapest key”, com riffs idênticos aos de Tom Petty, além da raivosa “Oh Canada”, citando problemas da sociedade de seu país na atualidade (violência urbana, drogas, fuga para o interior). É, a vida também está mudando onde tudo parecia perfeito.

Mas ela continua a nos dar presentes auditivos vindos diretamente do paraíso, caso da derradeira faixa “Goodnight California”, quase sete minutos de pedal steel, bateria tranqüila e aquela voz capaz de derreter o coração de um bárbaro visigodo (!). Viagem total e absoluta, mais de dois minutos de instrumental na introdução, destacando a guitarra de Greig Leiz (Wilco) e a harmônica de Paul Reddick, além da própria Kathleen tocando também violino. Esta é a faixa mais intrigante, misteriosa e bela que já escutei neste ano de 2008. Ouça e comprove, como se fosse um final de tarde derretendo no último dia do ano.

Quase impossível descobrir um disco inteiro agradável nos dias atuais? Aqui está a prova que não. Baixe, peça emprestado, compre, se emocione, mas não deixe de escutar a canadense. Ela merece a atenção que ainda não tem por estas plagas.
Como curiosidade para os possíveis fãs brasileiros da artista, o encarte está repleto de gravuras antigas com desenhos de flores pertencentes ao jardim botânico de Nova York. Em uma das imagens, na parte de baixo, está a seguinte inscrição de uma flor descoberta pela primeira vez em 1830: “Brésil, Minas Geraes”. Obrigado pela lembrança, Kathleen. Não precisa pedir pelas flores. Nós gentilmente já enviamos. Você merece faz tempo.

www.myspace.com/kathleenedwards

sábado, 24 de janeiro de 2009

MARK GARDENER


Novo passeio de um ex-Ride

Ele tocava guitarra e cantava numa das melhores bandas do chamado shoegazer, cena surgida na passagem dos anos 80 para o início dos 90 no Reino Unido. O quarteto Ride fez a alegria de quem gostava de barulho, melodias sussurrantes e senso pop refinado. Acabou em 1995 depois de quatro belos discos enquanto o Oasis começava seu reinado (hoje, Andy Bell, o outro guitarrista do Ride, é baixista do grupo).

MARK GARDENER ainda fez nova tentativa junto ao baterista do Ride, Laurence Colbert, com um grupo chamado Animalhouse. O mix de elementos eletrônicos com rock não chamou a atenção e Gardener foi dar um tempo viajando pela Índia e França. Foi aí que realizou apresentações acústicas, percebendo que ainda havia um público interessado em sua música.

Chamou os amigos britânicos do Goldrush e cometeu o disco These beautiful ghosts, doze faixas que remetem à atmosfera de sua ex-banda, mas com a mesma classe de antigamente. A abertura com “Snow in Mexico” mostra um primor pela melodia e pelos arranjos, com um baixo pulsante. As climáticas “To get me through” e “Magdalen sky” trazem aquelas vozes dobradas byrdianas sob clima onírico. “Rhapsody” – com piano e arranjo de cordas – seria a balada que o Oasis não consegue mais escrever.

O amálgama com o Goldrush funcionou bem nos climas crescentes de “Summer turns to fall” e na instrumental “Flaws of perception”, incluindo resquícios de música eletrônica, enquanto a faixa “Where are you now?” seria um auto-questionamento sobre a volta, por sinal, bem parecida com o ambiente do Ride em Carnival of light (1993). Apenas bem mais calmo e acústico, os belos fantasmas expressam as melancólicas canções de Mark Gardener.

www.markgardener.com

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

SNOOZE


Canções para a vida toda

Um cd conceitual, como se fosse um vinil duplo com doze faixas que se agrupam no formato de canção pop, mas de qualidade, como os Beatles, os Stones ou os Byrds fizeram um dia. Melodias leves, guitarras trabalhando riffs, dedilhados e acordes em direção ao refrão, linhas de baixo inventivas, bateria bem marcada e sem exibicionismos, este é o quarteto sergipano SNOOZE, amadurecidos do quase punk rock de mais de uma década atrás para um quase power pop classicamente ensolarado de hoje.

Mais chegado aos contemporâneos ianques como Buffalo Tom, Superdrag ou The Rooks, o terceiro trabalho da banda (ou o quarto, se contarmos a estréia ainda nos bons tempos da fita cassete) mostra o grupo afiando belos arranjos de guitarra em “Words for you”, que conta com uma gaita pontuando a canção, desfilando melodias ganchudas nas suaves, mas nem tanto, “Loser’s kiss” e “Fado”, além de distribuir baladas modernas como “Sunshine” ou “Snoozing all the time”. Isto é que eu chamo de cores diferentes que funcionam no quadro sonoro.

O apuro técnico da banda também se faz presente nos tambores de Rafael Jr., um dos mais apurados bateristas do cenário independente nordestino, e no constante trabalho de guitarras entre Clínio Júnior (hoje no Pelvs) e Marcelo Moura, uma rara alquimia muito bem resolvida. A experiência do grupo faz o clima do disco ficar bem equilibrado, trazendo também alguns instantes um tanto quanto mais experimentais, caso da instrumental “Um resfriado”, incluindo um theremin, e o barulho alicerçado na última faixa (“Stay with me , noiserockisthejazzofthefuture”).

O disco lançado em conjunto pelos selos Monstro(GO) e Solaris(RN) ainda no final de 2006 parece marcar a vida sonora do Snooze. O belo e longo encarte com as letras será o derradeiro deles?! As canções ficam para sempre, amigos sergipanos, não se preocupem.

www.snooze.com.br

domingo, 18 de janeiro de 2009

GIGANTIC




Gigantaphonic sounds (2006)


Na ativa desde 1999, a dupla australiana GIGANTIC, que conta com diversos músicos convidados, vem agitando o Estado de Victoria e arredores com seu power pop vigoroso, soando como um Big Star atualizado. Após lançarem dois Ep´s, os chefões Mark Di Renzo (vocal/baixo/guitarra) e Paul Di Renzo (bateria) cometeram seu primeiro álbum, lançado pelo selo aussie Pop Boomerang, especializado no novo cenário roqueiro do país dos cangurus e do surf.

O disco tem doze caprichadas faixas tanto na gravação quanto na inspiração. Rocks vigorosos respiram na abertura com “Some suburban road”, “Be no more”, “Coaster” e “Surf madness”, mas sem agressões auditivas. Mas o forte do grupo é arquitetar baladas melódicas e aquela canção que você fica repetindo o dia todo sem querer, com ocorre em “Steam girl”, “Baloon animals” e “Lied to”, esta última com uma introdução que vai num crescendo com uma guitarra tremolo que faz a diferença. Inventividade e melodia caminhando juntamente. “The highest comfort” ganha de qualquer faixa do último do Teenage Fanclub enquanto “Nice” desce o andamento, trazendo arranjo de cordas, piano e aquele clima de final de tarde em algum lugar agradável de se estar. “Hang on” parece uma faixa perdida dos Hoodoo Gurus ou do You Am I, seguindo uma linha que delineia o rock australiano a partir de acordes, digamos, ensolarados desde os Easybeats na década de 1960. As guitarras prezam por arranjos sem virtuose e as vozes cruzam backing vocals incisivos. Como diria a penúltima faixa, “Surf madness”, e parte de seu refrão: “I’ve got to surf / I’m ok”.

O disco termina com a nervosa “End transmission”, quase punk em sua rapidez e na voz radiofônica (à la Celibate Rifles, outro tesouro australiano), entretanto ainda sim refinada em seus timbres e riffs nervosos, altamente rock. Boas idéias não são para todos. Só para pequenos gigantes,e alguns deles vivem na Austrália. Por que essa ilha-continente tinha que ser tão longe do Brasil?!

www.gigantic.com.au

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

THE HOUSE OF LOVE



The house of love (1988)


O nome do grupo foi retirado de uma das obras “erótico-pornográficas” de Anais Nin. Vindos do sul de Londres, mas com um vocalista, guitarrista e compositor alemão, Guy Chadwick, o grupo lançou ainda em 1987 um compacto chamado “Christine” pelo selo inglês Creation, aquele que lançou Oasis e Jesus & Mary Chain. Pronto. O Reino Unido aos seus pés, embora muitas das canções da banda fossem da época do The Kingdom, banda anterior de Chadwick. No ano seguinte, o LP de estréia. Essencial.

Na abertura perfeita, “Christine”, hino oficial da banda. Canção de talhe clássico, climática, angustiante com os riffs e feedback agudos do guitarrista Terry Bickers, porém sem aquela tempestade sônica. Refrão marcante, melodia idem, um (a)típico exemplar de música pop atemporal. Já a seguinte, “Hope”, vem mais calma, cheia de dedilhados e versos no máximo de sotaque alemão de Chadwick, uma beleza. A próxima é “Road”, exalando um aroma psicodélico com riff mântrico de guitarra que se une ao baixo agudo de Groothuizen, tudo isso enquanto a voz grave do alemão segue quase explodindo como se fosse um Lou Reed mais entediado ainda, sem esquecer dos yeah-yeah-yeahs ao final. “Sulphur” parece um mix de Velvet com Stones, com microfonias no refrão e retorno à calmaria. Tempestade de ácido sulfúrico. Em “Man to child”, o andamento desacelera e os vocais sussurrantes tomam conta desta quase balada, com a letra versando perguntas seriamente irônicas a Jesus (“Where is the money?”), a Deus (“What am I doing?”) e Maria (“Where is the love?”).

O lado B – sim, o LP saiu no Brasil em tiragem limitadíssima de 500 cópias em 1989 pela Stilleto – vem nervoso com “Salome” e sua personagem feminina vista sob desejo vingativo (“I love the way she cries”) que mais parece uma prece. Efeitos flutuantes avisam que a etérea “Love in a car” emerge com uma bateria minimalista, cortesia de Pete Evans, causando um efeito Velvet total. Já “Happy” anuncia riffs apocalípticos e versos paradoxais (“I’ve lost my point of viem / but I’m happy to be with you”) em mais uma canção que implode e explode ao mesmo tempo, com Chadwick terminando por dizer “It’s not love”. A penúltima, “Fisherman’s tale”, abre com vocal quase gospel e pedidos oceânicos (“take me to the sea [...] I’d wish I sail away”) ao mesmo tempo em que a banda ergue tensão e alívio nos acordes de alta octanagem psicodélico-garageira. A despedida é “Touch me”, transparecendo as atmosferas sombrias velvetianas. Bateria mínima, acordes angustiantes, vozes inabaláveis (o título é repetido treze vezes, desesperado), microfonias, até terminar suave, o oposto do início do álbum.

The House of Love acabou em 1994, com Chadwick seguindo em instável carreira solo. A banda voltou a se reunir com a formação original em 2004, lançando o agradável Days run away.


quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

REDLANDS PALOMINO



Alt-country britânico

Observar bandas do velho continente simulando sonoridades do novo continente é fato raro. O comboio THE REDLANDS PALOMINO COMPANY produz o que se convencionou chamar de alt-country, ou seja, aquela mistura de southern rock, um pouco da sonoridade californiana nos momentos radiantes e arpejos timbrados na escola country. Tudo envolto na atmosfera bucólico-campesina.
A banda se formou em 1999 e, apesar de estar em Londres, seus integrantes são também do País de Gales e do sul da Inglaterra. Seus integrantes, Hannah Elton-Wall (voz, guitarra, violão), Alex Elton-Wall (voz, guitarra, violão), David Rothon (guitarra de 12 cordas, pedal steel), Rain (baixo) Tom Bowen (guitarra, violão), Dan Tilbury (bateria, também integrante dos The Snakes), lançaram o primeiro álbum By the time you hear this...we’ll be gone somente em 2004 pela independente Laughing Outlaw e se mantendo nesta gravadora para os discos seguintes.

Mas o cartão de apresentação da banda é o disco Take me home, lançado ano passado. Suas onze faixas possuem melodias encharcadas de belas canções, caso da baladona radiofônica “Wasted on you” e da instigante “Please come running”, além das canções mais climáticas, como “Empty feeling” (Creedence total) e a bela voz de Hannah em “She is yours”, um pequeno oásis no deserto sonoro de nossos dias. Um dos raros discos para se escutar de ponta a ponta que saíram na atualidade.

Recentemente lançaram o EP She is yours, contendo quatro faixas. Escute as canções e perceba que nem tudo está perdido, pois ainda há esperança nas terras ensolaradas e vermelhas desta companhia.


www.redlands.moonfruit.com

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

WRY


BRASILEIROS BRETÕES


Após algumas fitas demo e dois discos independentes lançados em solo tupiniquim, a gangue de Sorocaba (SP) se mudou de mala – sem cuia e sem cuíca – e guitarras para o solo britânico. Teimaram, peitaram e acabaram de lançar o terceiro cd, Flames in my head (Monstro Discos), desta vez com algumas faixas produzidas por Tim Wheeler (vocalista do Ash) e por Gordon Raphael (produtor do primeiro dos Strokes). No Brasil, saiu em belo formato digipack (veja seção Rok-en-rol).

O som do quarteto WRY aparentemente nunca mudou, fazendo bastante uso dos pedais de distorção e erguendo uma sonoridade nervosa com fisionomia noventista, similar a obscuras bandas britânicas como Midway Still, Senseless Things e até nuances de Idlewild, atual sensação escocesa. O álbum recente, no entanto, dá um passo a mais na qualidade da gravação, incluindo quatro faixas gravadas no próprio estúdio do grupo em Londres, na verdade a garagem, literalmente.

No disco novo, a maioria das canções passou pelo recapeamento dos produtores e a banda abrandou em alguns instantes, chegando quase a ficar quase pop (“Come and fall“), mas continuou arquitetando chuvas de lava garageira (“In the hell of my head“, “Powerless”), bem ao gosto dos atuais subterrâneos londrinos e seus inferninhos repletos de bandas procurando ser o próximo estouro. O disco emerge coeso nas dez composições presentes.

Em solo inglês desde 2003, o WRY – mesmo não sendo uma banda singular, fazendo um som até “normal” – conseguiu o que muitos sonham. Gravar, tocar e lançar discos na capital do (bom) rock terrestre. Também lançaram um compacto pela Monstro Discos (ver seção Rok-en-rol), estão gravando um novo trabalho (Whales and sharks) e escrevendo seu nome certo por linhas tortas.

www.myspace.com/wrymusic


quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

PIA FRAUS

“AFTER SUMMER”

A ESTÔNIA, ALELUIA, CONTINUA A MESMA


Conhecidos apenas no Japão, e até mais do que em sua terra natal, a Estônia (olhe no mapa europeu! Faltou às aulas de geografia, foi?!), o sexteto PIA FRAUS continua sendo um dos prolíficos nomes que ainda tocam, e muito bem, um tipo de som que muitos pensam ter acabado: o tal do dream-pop, ou shoegazer, para os mais aficccionados. Sim, a banda parece uma mistura de Cocteau Twins, My Bloody Valentine e Ride, ou seja, aqueles vocais sussuradamente psicodélicos, guitarras cortantes e cheias de efeito, além de, claro, aquela melodia escondida por trás da parede de som criada. Na ativa desde o início deste milênio, Eve Komp (voz, sintetizador), Kart Ojavee (sintetizador), Rein Fuks (guitarra, voz), Tonis Kenkmaa (guitarra), Reijo Tagapere (baixo) e Margus Voolpriit (bateria) lançaram seu primeiro cd ainda em 2001, Wonder what it’s like, de forma independente e o segundo álbum, In solarium (2002), já saiu nos EUA pela Clairecords.

Eles costumam tocar muito pouco ao vivo. Ano passado, somente os estonianos e japoneses tiveram o prazer de ouvi-los e vê-los em ação. Em 2005, veio a consagração independente com Sailing on a grapefruit lake, lançado pelo selo japonês Vinyl Junkie, que com suas quatorze faixas arrebanharam um séqüito de fãs ao redor do mundo. Não havia como negar a beleza suavidade/rispidez de canções como “Moon like a pearl” ou “Summer before spring”. Em 2006 foi lançado Natural heart software, trazendo mais doze faixas que fazem um cruzamento entre Brian Wilson fase psicodélica e Kevin Shields no auge do barulho sônico.

No segundo semestre de 2008 saiu After summer, assim como o anterior lançado pelo selo da Estônia Seksound (que já completou vinte anos de atividade!) e que nele trabalham Eve e Tonis. Nas treze faixas do álbum, a mesma sonoridade onírica do sexteto marca composições como “Springsister” e “Saling yes”, lembrando os bons momentos do Stereolab e Lush, todavia com gosto de novidade. Ah, o disco foi produzido por Norman Blake (Teenage Fanclub)

Procure. Ainda existe boa música neste mundo cruel. Viva o Pia Fraus!

www.piafraus.com

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

THE MOOG


HUNGRIA CHAMANDO…?

Um dos países mais importantes do mundo de outrora (leia-se século passado, quiçá milênio passado) cometeu uma das raras boas surpresas no mundo do rock no ano passado. O nome de um quinteto advindo da Hungria – não sabe onde é? Pegue o mapa da Europa, olhe para a direita, quase no cantinho... – parece simples e direto como a música que ressoa de seus inspirados acordes: THE MOOG, advindos da capital do país citado, Budapeste.

Apadrinhados pelo selo independente norte-americano Musick Records, os “hungrienses” – sinta o drama dos nomes! – Tonyo (vocals / teclados), Adi (guitarra), Miguel (guitarra), Csabi (baixo) e Gergo (bateria) impõem um som que trafega pelo power pop de guitarras altas, o clima meio Nova York de algumas melodias (você sabe do que se trata...) e exala juventude em canções rápidas.

O grupo manda ver e ouvir no volume e refrões ensolarados, caso das faixas “Everybody wants”, um petardo sonoro apresentando os clássicos três acordes, e, principalmente, na estridente “I like you”, uma mistura de Beatles, Superdrag e Buzzcocks. Um riff de guitarra daqueles, aquela urgência comunicativa e um estribilho mais pegajoso do que chiclete no asfalto em dia de verão nos trópicos.

O álbum de estréia Sold for tomorrow, lançado ano passado, segue a mesma linha, às vezes com menos inspiração (vide as faixas “Panic” e “Can’t say no can’t say yes”) e outras vezes beirando bandas britânicas mais apressadinhas, como em “Survive”, que mais parece um The Clash acelerado, quase punk, mas contendo uns backing vocals quase doo-wop. Para dizer a verdade, assemelha-se mais a uma versão contemporânea dos Kinks (com todo respeito, consideração e vantagem aos bretões, claro).

Ultimamente, a banda está em turnê pela Europa, (Espanha, França, Alemanha...), mas continua com os dez pés nos Estados Unidos, que acolheu estranhamente cinco cidadãos que parecem passar férias na Califórnia (sede do selo Musick) ao mesmo tempo em que expõem alguns dos piores cortes de cabelo da temporada, isso desde 2005, quando a banda começou a tocar em alguma garagem de Budapeste. Como diria o título de uma de suas faixas, “You raised a vampire”.

Bem, o The Moog não é a nona nem a décima maravilha do planeta, mas vale gastar alguns segundos de sua vida os escutando. Além do mais, você vai ficar expert em entender a língua inglesa sob um leve acento vindo de um país quase esquecido. Isto, sim, parece ser a tal globalização.

www.myspace.com/moogband